Manifesto do Silêncio Orgulhoso (ou: Manual do Bom Cidadão Domesticado)
- temisciraartedigit
- há 24 horas
- 2 min de leitura

Declaro, com todo respeito que já não nos resta,
que exigir direitos no Brasil é um hábito deselegante.
Quase uma grosseria social.

Afinal, para que criar constrangimento?
Para que fazer perguntas?
Para que ler contratos, leis ou avisos em letras miúdas,
se o silêncio sempre funcionou tão bem?
Fomos educados para isso.
Desde cedo aprendemos que quem reclama “arruma problema”,
que quem questiona “não vai longe”,
e que justiça é um conceito bonito,
desde que fique bem longe da nossa rotina.

Quando um advogado engana, é azar.
Quando um banco cobra o que não deve, é sistema.
Quando um político rouba, é política.
E quando um parente passa a perna,
bem… família é isso mesmo.
O medo, esse grande educador nacional,
faz o serviço completo.
Às vezes vem em tom professoral:
“Você não entende seus direitos.”
Às vezes vem direto ao ponto:
“Cuidado com o que você fala.”
Funciona.
Sempre funcionou.

Assim, construímos com orgulho
uma prisão sem grades,
sem algemas,
sem carcereiros visíveis.
Basta o medo bem distribuído
e a resignação em dia.
Agora, um momento de matemática básica —
não se assustem.
Cerca de sessenta e poucos brasileiros
concentram bilhões.
O 1% mais rico detém quase tudo.
Os outros 99% detêm o quê?
Medo.
Muito medo.
E uma incrível capacidade de aceitá-lo como destino.

Somos maioria absoluta.
Mas nos comportamos como figurantes.
Pagamos impostos, sustentamos o Estado,
mantemos a máquina funcionando
e ainda ouvimos, com naturalidade,
que somos empregados.
E talvez sejamos mesmo.
Não por lei.
Por comportamento.
Aceitamos.
Aplaudimos.
Voltamos para casa.
E seguimos repetindo que “não adianta”.

Enquanto isso, a língua muda.
As palavras perdem sentido.
Exploração vira ajuste.
Abuso vira interpretação.
Injustiça vira narrativa.
E tudo fica mais fácil
quando ninguém reage.
Este manifesto não é um convite à revolução.
Seria pedir demais.
É apenas um lembrete incômodo:
Direitos não se perdem de uma vez.
Eles são abandonados,
um silêncio de cada vez.

Então sigamos assim,
quietos, educados, prudentes.
Até que nossos filhos e netos
herdem um país impecavelmente injusto,
bem organizado,
e totalmente normalizado.
Porque, no fundo,
o problema nunca foi a falta de direitos.
Foi o excesso de medo
de usá-los.









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