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URSO OU HOMEM?

  • temisciraartedigit
  • há 24 horas
  • 2 min de leitura

Atualizado: há 21 horas




Hoje eu estava vendo aqueles vídeos inúteis da internet quando, do nada, reapareceu aquela velha pergunta torta: “Se você estivesse perdida numa floresta, preferiria encontrar um urso ou um homem?” E, como sempre, muitas mulheres respondem que preferem encontrar o urso. E, como sempre também, vem o deboche. Homens — e, pior ainda, algumas mulheres — rindo, ironizando, fingindo que não entendem a resposta.


Mas aí eu parei pra pensar sozinha: essa pergunta já nasce mal-intencionada. Porque ela não quer saber de floresta nenhuma. Ela quer desqualificar o medo feminino. Quer dizer: “olha como vocês exageram, preferem um animal selvagem a um homem”. Só que o que ninguém quer discutir é por que tantas mulheres escolhem o urso.



Primeiro ponto: se eu estivesse perdida numa floresta, provavelmente teria acontecido algo fora do normal. Porque, sendo bem realista, mulher não entra sozinha numa mata do nada. A não ser que esteja procurando alguém — um filho, por exemplo.

Agora outra pergunta que ninguém faz: o que um homem estaria fazendo sozinho dentro de uma mata? Se fosse resgate, seriam bombeiros, fardados, identificados. Se fosse um parente, a mulher saberia. Mas um homem aleatório, sem identificação, num lugar isolado? Isso não é tranquilizador — é alerta.



E aí vem a parte que mais incomoda quem faz essa pergunta: com um urso, existe previsibilidade. Ursos não caçam humanos. Ursos evitam humanos. Ursos atacam, na maioria esmagadora dos casos, quando se sentem ameaçados, acuados ou quando alguém invade o espaço deles. Tanto que existem orientações oficiais de segurança amplamente divulgadas: fazer barulho pra não surpreender, não correr, manter distância, parecer maior, recuar devagar.

Ou seja: é um risco conhecido, estudado e evitável.



Já com um homem violento?

Não existe protocolo.

Não existe comportamento “correto” que garanta sobrevivência.

Não existe estatística que jogue a favor da mulher.


No Brasil, os dados são claros e reais: cerca de 4 mulheres são mortas por dia vítimas de feminicídio. Mulheres assassinadas por homens, muitas vezes parceiros, ex-parceiros ou completos desconhecidos. E isso sem contar estupros, agressões e tentativas de homicídio que não entram na estatística final. Não existe uma estatística equivalente de mulheres mortas por ursos em florestas brasileiras — porque essa floresta é uma alegoria, uma fantasia. A violência masculina, não.



Tem gente que acha exagero dizer que preferiria um urso. Mas exagero é fingir que o medo feminino surgiu do nada. Exagero é tratar como piada uma pergunta que tenta empurrar mulheres para situações de risco, como se desconfiar fosse “histeria”. E o mais irônico: é muito mais fácil se livrar de um urso do que de um homem agressivo, porque o urso não sente prazer em dominar, humilhar ou machucar. Ele só quer distância.



Então, da próxima vez que alguém vier com essa pergunta “inocente”, talvez a resposta certa não seja “urso ou homem”, mas outra bem mais incômoda:

👉 por que incomoda tanto o fato de mulheres confiarem mais em um animal previsível do que em um homem desconhecido — e o que isso diz sobre o comportamento que vocês se recusam a questionar?

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