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Sobre Impostos, Caridade Forçada e a Inacreditável Resiliência do Elástico Brasileiro

  • temisciraartedigit
  • 26 de abr.
  • 6 min de leitura

Ah, o brasileiro. Ser vivo fascinante, capaz de encontrar um jeitinho para tudo, menos para escapar daquela sensação de que está tomando um golpe atrás do outro. Estava aqui, em um raro momento de lucidez entre um boletão vencido e outro, refletindo sobre a coisa mais democrática que temos: a habilidade de pagar impostos e receber absolutamente nada em troca.

Vamos começar com uma notícia que nos enche de orgulho, daquelas de bater no peito e dizer “é nóis”. O Brasil, segundo o ranking do Banco Mundial, ostenta o 184º melhor sistema tributário do mundo entre 190 países. Isso mesmo, somos quase campeões! Só perdemos para lugares que devem ter sistemas baseados em roleta-russa e cartas de tarô. Para ser mais preciso, um estudo do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT) revelou que, entre os 30 países com maior carga tributária do planeta, nós somos campeões absolutos na pior categoria: há mais de dez anos consecutivos, somos o país que menos devolve em bem-estar social o que arranca do povo. Somos o último colocado. Lanterna. O lanterninha da qualidade de vida. Na Irlanda, eles conseguem o milagre da multiplicação dos recursos. Aqui, conseguimos o milagre da desintegração .


E antes que algum defensor da “eficiência da máquina pública” venha com conversa mole, vamos falar de números. A alíquota do nosso futuro IVA (o imposto sobre consumo) já está estimada em impressionantes 28%, segundo dados oficiais do Ministério da Fazenda. Isso nos colocará no topo do mundo, superando a Hungria (27%) e deixando países desenvolvidos como Japão (10%) e a média da OCDE (19%) no chinelo. É o troféu de “Maior Imposto do Mundo” que ninguém pediu, mas que o Congresso, em sua infinita sabedoria e com aquele carinho especial pelas exceções (que sempre beneficiam quem tem lobby), resolveu nos dar de presente .

É lindo, não é? Na teoria, o imposto é o preço da civilização. Na prática brasileira, é o preço da diversão alheia.


A incoerência começa quando a gente tenta entender a lógica da punição. O sistema é uma verdadeira obra de arte do “se vira aí, otário”. Se o trabalhador, que já paga 28% de IVA em cada mordida no pão, não consegue pagar o IPTU, perde o imóvel. Não paga o IPVA, perde o carro. A Receita Federal, que tem uma capacidade de rastreamento digna de agência de inteligência de primeiro mundo, cai em cima do pobre que errou um número no CPF na nota fiscal.


Agora, faz o seguinte exercício: pega o Orçamento de 2025, aprovado pelo Congresso, que prevê R$ 233 bilhões para a Saúde e R$ 167 bilhões para a Educação. Parece muito, né? Só que tem um pequeno detalhe chamado “emendas parlamentares impositivas”. Enquanto o cidadão comum é executado por não pagar R$ 200 de IPVA, os representantes eleitos brigam por um orçamento paralelo de R$ 50,4 bilhões para emendas, muitas vezes destinadas a redutos eleitorais com o famoso “orçamento secreto 2.0”. E olha a ironia fina: o aumento dessas emendas foi maior que o aumento dos recursos para a educação. Sim, você leu certo. O dinheiro que deveria ir para comprar livro didático foi para garantir o voto de prefeito aliado. E a gente paga essa conta .


E o retorno? Ah, o retorno é de primeira qualidade.

Se você tiver um infarto e der sorte de cair no SUS (o mesmo que recebeu R$ 233 bi), prepare-se para o tratamento de choque: uma aspirina e um “próximo”. Isso quando você não é vítima de um diagnóstico errado, porque o profissional, sobrecarregado e mal pago, está atendendo 100 pessoas por turno enquanto o dinheiro do “piso da saúde” sumiu num rombo de gestão ou numa superfaturação de medicamento.


Se a violência te pegar, aí é que o negócio fica filosófico. A segurança pública, que deveria nos proteger, funciona como uma espécie de “programa de proteção ao criminoso”. O sujeito quebra a cara de alguém, sonega pensão alimentícia, ameaça, e sai pela porta da frente dando risada, debochando da vítima. Cadê o imposto da segurança? Foi, provavelmente, para pagar a aposentadoria especial de algum agente que nunca pisou na rua. Enquanto isso, o cidadão de bem é obrigado a investir em cerca elétrica, câmera, portão blindado e rezar para que o “tributo” cobrado pelo traficante da esquina seja menor que o IPTU.

E a cereja do bolo: a educação. Seu filho vai para a escola pública (que consome R$ 167 bi) e corre o risco de voltar para casa violado ou ameaçado por quatro delinquentes que, adivinhem? Também são alunos da mesma rede. E nada acontece. O Conselho Tutelar está sem estrutura, a direção está preocupada em preencher planilhas para a Secretaria de Educação que, por sua vez, está ocupada demais em justificar por que comprou 10 mil apostilas a R$ 300 cada (preço de luxo) de uma gráfica de um primo do sobrinho do secretário. Isso é “investimento em educação”? É, deve ser. Investimento em paciência.


Mas a cereja de bolo, na verdade, é outra. Enquanto a gente está aqui, se matando para pagar 28% sobre o consumo, com o salário sendo comido pelo Leão, tem uma galera aí vivendo num paraíso fiscal tropical. O Relatório Mundial sobre a Desigualdade 2026, aquele do Thomas Piketty, trouxe um dado que me fez rir de nervoso: o Brasil é um dos países com menor tributação sobre os super-ricos. Enquanto a classe média paga entre 10% e 20% de imposto de renda (quando consegue chegar no mínimo), os bilionários, aqueles que andam de jatinho e compram mansão em Miami, conseguem fazer a alíquota efetiva deles chegar perto de zero. Zero! É impressionante. O sistema foi desenhado para que o dinheiro escorra para o topo, e quando chega lá, escorrega para um paraíso fiscal .


E os ricos sonegam. Sonegam descaradamente. Não aquela sonegação de pobre que esqueceu de declarar um bico, mas aquela sonegação estruturada, com escritórios de advocacia em ilhas paradisíacas. E o governo? O governo faz o quê? Dá três tapinhas nas costas, chama de “travesso”, e aprova uma lei que tira os precatórios (dívidas judiciais, muitas vezes bilionárias) do teto de gastos para não precisar cortar esses privilégios. Ou seja, a dívida que o governo tem com quem ganhou uma causa na Justiça (muitas vezes grandes empresas ou ricos) é paga fora do controle, enquanto o pobre que precisa do INSS fica na fila . E o Judiciário, coitado, só quer saber de garantir seus próprios privilégios. O STF, por exemplo, decidiu recentemente liberar o próprio Judiciário do teto de gastos para usar receitas próprias. Em outras palavras: eles podem gastar o que quiserem, quando quiserem, e nós que paguemos .

A lógica é simples e perversa. O governo nos obriga a vender o almoço para pagar a janta dos outros. Tira da goela dos nossos filhos para pagar a “verba indenizatória” de deputado que usou R$ 169 mil em “propaganda pessoal” (isso mesmo, a nossa grana, paga para ele se autopromover) . Ou para pagar os R$ 146,5 bilhões que o Judiciário consome por ano, com seus supersalários e auxílios-moradia que mais parecem aluguel de mansão .


A solução é tão simples que até uma criança de 5 anos entende: diminuir impostos e investir direito. Mas não, o governo prefere criar um IVA de 28% e chamar isso de “reforma”. Prefere gastar R$ 60 bilhões no PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) em obras superfaturadas que nunca ficam prontas, enquanto as escolas caem aos pedaços .


A paciência do brasileiro é realmente elástica. A gente paga o maior imposto sobre consumo do mundo, tem o pior retorno social entre os 30 países mais tributados, perde o carro por IPVA atrasado enquanto bilionário não paga nada, e ainda batemos palma para “reforma tributária” como se fosse um favor.


Mas como diria o meu avô: elástico, quando esticado demais, arrebenta e estrala no olho de quem está puxando.

São 210 milhões de pessoas. A maioria está há 1501 horas por ano só tentando entender quantos impostos pagou, enquanto os “travessos” do topo estão curtindo em Angra dos Reis . O problema não é a arrecadação, é a falta de vergonha na cara na aplicação.


A conta não está fechando, não. E quando o elástico finalmente arrebentar — porque ninguém é de ferro, muito menos de borracha — não adianta o governo correr atrás com mais imposto, porque a manada solta não para no Leão.


O aviso está dado.

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